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Um completo professor universitário que soube sempre associar-se ao ensino de alto padrão

Discurso do professor dr. Odorico Machado de Sousa, por ocasião da incorporação do retrato do professor dr. Paulo Sawaya ( nascido 11 de setembro de1903 e faleceu em 29 de outubro de 1995) à galeria do Museu Histórico da Faculdade de Medicina de São Paulo.

"O Museu Histórico da Faculdade de Medicina, feliz iniciativa do prof. dr. Carlos da Silva Lacaz, seguindo a tradição, incorpora neste momento a seu acervo o retrato de um ex-aluno desta Faculdade e autêntico universitário, o prof. dr. Paulo Sawaya, a quem prestamos homenagem pela sua extraordinária atividade como professor, como pesquisador, como orientador e formador das mentes jovens e também como administrador.

Dr. Paulo Sawaya

Dr. Paulo Sawaya quando Diretor eleito do Instituto de Biociências da Universiadade de São Paulo entre 11/03/70 a 08/10/73

Sendo já perito-contador, ingressou na chamada Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo em 1923, e nela nos conhecemos e passamos a ser companheiros certos nos estudos ao longo do curso, convivendo em grande estima que logo se tornou forte amizade. Juntos tivemos a iniciativa de uma aproximação com aquela figura austera, mas profundamente humana, o prof. Alfonso Bovero. Acolheu-nos ele em seu laboratório e, uma vez ciente de nossas intenções, nos sugeriu logo um estudo sobre a estrutura da uretra humana que no futuro daria matéria para a tese de doutorado de cada um de nós, os "irmãos siameses", como ele nos chamava. Recebemos dele, desde então, marcada influência na iniciação científica e que nos levou mais tarde para a vida universitária, embora em áreas diferentes.

Terminado o curso, Sawaya teve breve atividade médica, foi professor do Curso Pré-médico e do Colégio Universitário, e logo após a fundação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de nossa recém-fundada universidade, que teve inúmeros e notáveis professores estrangeiros, recebeu de um deles, o prof. Ernest Bresslau, o convite para o cargo de seu assistente no Departamento de Zoologia. Aceitou-o com entusiasmo e logo entregou-se ao estudo da biologia de Anfíbios Ápodos e da morfologia dos crustáceos.

Com a morte inesperada do prof. Bresslau, o Departamento de Zoologia recebeu novo professor, Ernst Marcus, com quem Sawaya continuou como assistente. Logo prestou concurso de Livre-Docência em Zoologia, vindo a ser o primeiro no Brasil a conquistar esse título. Avançaram seus estudos e pesquisas, principalmente em Fisiologia Comparativa, área que cada vez mais o absorvia e na qual tornou-se logo respeitada autoridade o que o levou a concorrer à Cátedra de Fisiologia Geral e Animal, disciplina desmembrada do Departamento de Zoologia da referida Faculdade. Atingiu assim o topo da carreira universitária na qual desenvolveu notável atividade, sem deixar de buscar continuamente novos conhecimentos. Assim, com o objetivo de constante aperfeiçoamento, fez estágios diversos no exterior em institutos de zoologia e de biologia marinha, citando-se entre eles a Estação Zoológica de Nápoles, os laboratórios franceses de biologia marinha de Banyuls de Roscoff e de Luc os ingleses de Plymouth e de Bangor; os norte-americanos de Woodhole, em Massachussetts, de Los Angeles e de Beaufort em Carolina do Norte.

Sawaya foi inexcedível como professor; conhecedor profundo da matéria sabia transmiti-la a seus alunos de forma atraente, com ampla documentação e ilustração, prendendo assim sua atenção no assunto e despertando-lhes o desejo de se aprofundarem no tema abordado. Formou seus primeiros assistentes no Departamento, muitos dos quais ascenderam todos os degraus da carreira universitária. Seu Departamento passou a reunir número cada vez maior de alunos já diferenciados e mesmo elementos já formados em outros institutos do país e do estrangeiro, que acorriam em busca de formação especializada, atraídos pelo renome que já então alcançara seu diretor que foi até mesmo convidado para ministrar cursos em outros países. Assim é que realizou um curso na Universidade de Hamburgo sobre “Fisiologia Comparativa” e um outro na Universidade de Washington, em Seattle, sobre “Fisiologia dos Animais Marinhos”.

Como um completo professor universitário soube sempre associar ao ensino de elevado padrão a pesquisa em áreas diversas da anatomia humana e comparativa, de zoologia, de fisiologia geral e comparativa, na qual concentrou suas investigações. Procurou conhecer os animais em suas relações íntimas com o meio em que viviam, o seu comportamento natural e não somente enclausurado em laboratório. Suas publicações chegam a 304, havendo ainda alguns trabalhos no prelo. Eles são, em esmagadora maioria, resultado de pesquisas próprias nas várias áreas que palmilhou e que apareceram em revistas nacionais e estrangeiras. Algumas publicações versaram sobre problemas de ensino, de estrutura universitária, da carreira universitária, assuntos com que sempre esteve preocupado, não esquecendo a biografia de seus mestres Alfonso Bovero, Ernst Bresslau e Ernst Marcus.

Cabe agora especial referência a uma grande obra de Paulo Sawaya, a realização de um sonho longamente acalentado e que era também o anseio dos estudiosos das ciências biológicas em geral. Pelo seu idealismo, seu dinamismo infatigável e espírito organizador aliado à invencível pertinácia, ele fez nascer, modesto a princípio, em terreno por ele doado e com auxílio de seus colaboradores, o Laboratório de Biologia Marinha, em São Sebastião, na Praia do Cabelo Gordo de Fora. Com ampliação da área e novos recursos que ele soube conseguir de entidades oficiais e mais ainda da Fundação Rockfeller, o Laboratório transformou-se em Instituto de Biologia Marinha, hoje integrado à Universidade de São Paulo. Contando com amplo laboratório, biblioteca e residência para estagiários, o Instituto, a concretização de um sonho, é hoje um centro de grande e contínua atividade onde se reúnem estudiosos do país e do exterior.

Sawaya não fugiu às responsabilidades administrativas, tendo sido, além de Chefe do Departamento de Fisiologia Geral e Animal, Diretor da extinta Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da usp, Diretor do Instituto de Biociências, Vice-Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas, Diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro; em todos deixou a marca de sua capacidade de organizador e administrador.

Participou também ativamente de inúmeros eventos científicos nacionais e internacionais, representando muitas vezes a Universidade de São Paulo, como nas Comemorações Centenárias da Universidade de Princeton nos Estados Unidos; no XVIII Congresso Internacional de Fisiologia de Oxford; nas Reuniões de Especialistas em Biologia Marinha, em Concepción (Chile), em São Paulo e Viña del Mar; no Simpósio sobre “Perspectivas em Biologia Marinha”, em La Jolla (Califórnia); no XV Congresso Internacional de Zoologia em Londres, onde foi eleito Vice-Presidente do Congresso e membro permanente de todos os Congressos de Zoologia. Seria longo lembrar todos os demais conclaves científicos dos quais participou, mas vale lembrar que ele fez parte da Comissão de Instalação do Jardim Zoológico de São Paulo.

Paulo Sawaya é membro de muitas sociedades científicas e entre elas, a Sociedade Brasileira para o progresso da Ciência, da qual foi um dos fundadores, a Academia Brasileira de Ciências, a Academia Paulista de Ciências, a Zoological Society of London, a Americam Society for the Advancement of Science. E entre seus títulos honoríficos destaco o de Doutor “Honoris Causa” da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o de Doutor “Honoris Causa” da Universidade Federal da Bahia e um de excepcional valor que recebeu de Sua Majestatade a rainha da Inglaterra, o de Officer of British Empire, pelo seu desempenho em promover e manter intenso intercâmbio científico com esse país.

Pelo que acabo de dizer nesta síntese das atividades de Paulo Sawaya, vê-se como foi ampla e diversificada sua atividade, que o projetou no país e no estrangeiro como figura exponencial de insuperável valor. E como homem de muito cérebro e não menos coração, encontrou sempre, a meio de tantos afazeres, o tempo bastante para olhar os mais humildes e desfavorecidos e, como membro da Sociedade São Vicente de Paulo e o mais graduado no Brasil, ele lhes proporciona inestimáveis auxílios.

Está assim, plenamente justificada a iniciativa do prof. Carlos da Silva Lacaz, de acolher hoje no Museu Histórico da Faculdade de Medicina o retrato de Paulo Sawaya. Ex-aluno desta casa, admirável exemplo de dignidade no desempenho de suas inúmeras funções ao longo de sua vida cheia de realizações e que contou para tanto com o dedicado apoio e constante estímulo de sua esposa Dona Sonia de Barros Sawaya, a quem rendo minha homenagem. Perdoe-me caro amigo se nestas palavras feri sua modéstia e sua simplicidade que sempre me encantaram, mas não pude reprimir o ímpeto de dizer o que disse, que brotou com tanta naturalidade do íntimo de mim mesmo."

Odorico Machado de Sousa

Data de Publicação : 01/08/2007
Veículo : Comunicação da AMLB
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