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Faleceu nesta terça-feira (23/10), aos 82 anos, o médico cardiologista Mário Antônio Sayeg, um dos pioneiros no Brasil nos estudos sobre envelhecimento e saúde. Mário Sayeg era pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp). Durante uma vida inteira dedicada à Fiocruz, Sayeg foi vice-presidente de Planejamento da Fundação na gestão do presidente Guilardo Martins Alves e criador do programa da Terceira Idade. O sepultamento ocorrerá às 17 horas de hoje, na Capela Real Grandeza do Cemitério São João Batista, em Botafogo. Ele deixa viúva, Dalva Coutinho Sayeg.
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| Mário Antônio Sayeg (Foto: Virginia Damas) |
Foi em 1962 queSayeg deixou de ser cardiologista, passando assim a trabalhar e a se preocupar com os idosos. Daquela época em diantefoi responsável pela elaboração de diversos programas e cursos voltados para a terceira idade, culminando, em 1993, com a formação da primeira turma do curso de especialização em envelhecimento e saúde do idoso da Ensp. Foi uma iniciativa pioneira em trazer para o campo da saúde pública uma nova visão sobre o envelhecimento da população, formando assim profissionais melhores capacitados para trabalhar nos campo da geriatria e gerontologia.
Na Ensp, além de aulas nos cursos regulares da Escola, o médico criou o Núcleo de Saúde do Idoso do Departamento de Administração e Planejamento em Saúde. Seu desempenho foi fundamental ainda para a estruturação da Sociedade de Geriatria e Gerontologia, seção Rio de Janeiro. A Associação de Parentes e Amigos de Pessoas com Alzheimer, Doenças Similares e Idosos Dependentes(Apaz) prestou uma homenagem ao pesquisadorem 2002,pelo trabalho desenvolvido na área.
Em 2003 o periódicoCadernos de Saúde Pública lançou um volume (19-3/maio-junho) dedicado à saúde pública e ao envelhecimento, como uma homenagem especial a Sayeg. No mesmo ano foi agraciado com o Prêmio Direitos Humanos da Opas, na categoria Idosos – personalidade. O prêmio é um reconhecimento ao trabalho desenvolvido na área. Também em 2003 o médico recebeu um diploma de reconhecimento da Associação Brasileira de Higiene, pelo seu importante trabalho na área de saúde pública.
Mário Sayeg: médico, professor e ativista
Paulo Buss*
Conheço Mário Sayeg há mais de 25 anos. Quando ingressei na Fiocruz, em 1976, ele era o professor Sayeg e me ensinou muito com a sua visão de planejamento de saúde. Logo depois, o professor assumiu a posição de diretor de Planejamento da Fundação. Neste cargo, criou, com Guilardo Martins Alves, então presidente, uma estrutura consistente para a instituição. Com o passar dos anos, o "professor" antecedendo seu nome que eu utilizava no início sumiu, por insistência dele ("não me deixe mais velho"; "você já tem senhoridade para me chamar de você"; etc.). Cresciam, a cada dia, uma imensa admiração e respeito por várias coisas que ele fez.
Primeiro, pela forma enérgica, embora carregada de paciência e tolerância duas de suas maiores virtudes com que ele se aventurou, há mais de dez anos, quando não era ainda moda, no campo da gerontologia, que se afigurava como novidade. Não da visão clínica, focada nos indivíduos idosos, mas enquanto questão coletiva, de saúde pública.
Foi um pioneiro aqui no Brasil nesta área e, como tal, desbravou caminhos e enfrentou posturas de descrédito por parte daqueles que não entendiam a magnitude e a transcendência do que ele apregoava como "uma prioridade de hoje e do futuro": a crescente presença dos idosos na sociedade, caracterizando-se, por isso mesmo, como uma questão importantíssima para a saúde pública contemporânea.
Com esta visão quase premonitória, criou o Núcleo de Saúde do Idoso do Departamento de Administração e Planejamento da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp), aqui na Fiocruz, enquanto Piquet Carneiro desbravava o mesmo terreno na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Naquelas alturas, penso que o ajudei muito, dando todo o apoio possível diante da incompreensão de muitos às invencionices que ele me trazia, no campo do ensino e da pesquisa na terceira idade.
Agregou gente de diferentes profissões e disciplinas em torno dele no Núcleo então criado e formou centenas de profissionais, em um dos primeiros programas acadêmicos do país que ligava a saúde pública com as questões dos idosos. Em decorrência disto, estruturou, com liderança e capacidade de agregação, a Sociedade de Geriatria e Gerontologia, seção Rio de Janeiro, hoje uma sociedade respeitada nacionalmente. Com seu jeito sorridente, simpático e cativante, foi superando as barreiras e driblando as dificuldades, como ocorre com todos os pioneiros.
Ao final, este número especial dos nossos Cadernos de Saúde Pública o homenageia em alto estilo: reunindo os melhores pensadores e investigadores da área da saúde do idoso, muito discípulos seus, para celebrar aquilo que ele tem de melhor e que eu nunca deveria ter retirado do vocativo com que o chamava: professor Mário Sayeg, dos bons, e de tanta gente pelo Brasil afora!
Junto com Dalva, que também quero lembrar neste pequeno e emocionado texto, forma uma dupla formidável, como se olhassem ambos, com benevolência, compromisso e ternura, o todo da nossa população: ela, nossas crianças e adolescentes; ele, nossos velhinhos, que todos seremos um dia.
Salve, Mário Sayeg, mestre e sábio, que ainda hoje enriquece com suas idéias e seu jeito agradável, suave e elegante os nossos dias aqui na Fiocruz!
* Paulo Buss é presidente da Fiocruz. Este artigo foi veiculado na revista Cadernos de Saúde Pública, em 2003. |