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Incansável, atendia também a inúmeros chamados de doentes em seus lares

Alexandre Kalil Yazbek nasceu em 1º de outubro de 1884, filho de Raul Yazbek e Jalile Salunu Yazbek. São Paulo da sua meninice, no começo do século XX, era uma peque­na cidade provinciana. A rua 25 de março, onde então residia, era separada da rua Santo André por um cónego que, da Ladeira Porto Geral seguia para as proximidades da Estação do Pari, desaguando no Tamanduatei, num lugar chamado Banco de Areia. Nessa época freqüentava a escola do padre Jacob, onde aprendeu a língua árabe com os Professores Tanus e Abalan Saad. Com muita assi­duidade ia à igreja e, aos domingos, era designado para a leitura do Evan­gelho no texto árabe.

Rua 25 de março  Rua 25 de março em 2007

Rua 25 de março no começo do século passado e 100 anos depois

Uma grande emoção que sentiu na sua infância foi no ano de 1906 quando se juntou à multidão entusiasmada que corria à Estação da Luz para saudar a vida do Pai da Aviação, Santos Dumont. Estudou no Ginásio do Estado que funcionava no Liceu de Artes e Ofícios, sendo este na época o mais imponente edifício da cidade. Sua família residia, então, à Rua Florêncio de Abreu, onde seu pai possuia pe­quena indústria. Em 1912, criada a Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, as primeiras aulas teóricas foram dadas na Escola de Comércio Âlvares Pen­teado e os primeiros laboratórios instalados num velho casario da rua Bri­gadeiro Tobías.

Notabilidades das ciências médicas como Emilio Brumpt, da França, Bovero e Donati da Itália, liaberfeld da Alemanha, vieram ao convite de Arnaldo Vieira de Carvalho, diretor e fundador da Faculdade, contribuir para o sucesso da recém-formada Escola. Da Bahia veio para a Medicina Legal Oscar Freire, Celestino Bourroul, Benedicto Montenegro, Sérgio de Paiva Meira Alho e Cantidio de Moura Campos, foram preparados para substituir nas respectivas cátedras, os primeiros mestres. Trabalhou como auxiliar no Laboratório de Parasitologia com o Profes­sor Emilio Brumpt. Em seu famoso livro “Précts de Parasitologie”, Emilio Brumpt refere-se inúmeras vezes aos trabalhos de Alexandre Yazbek so­bre os Micetomas.

Devido às dificuldades financeiras da família, seu pai fez-lhe ver a neces­sidade de deixar os estudos de medicina e dedicar-se ao comércio. Sabe­dor deste fato, Brumpt procurou Arnaldo Vieira de Carvalho e este, in­continente, saiu a pé da rua Brigadeiro Tobias para a rua Floréncio de Abreu, conversou com o pai de Yazbek, convencendo-o de que esta seria uma infeliz atitude. Jamais se esqueceu deste espontâneo ato de paterna­lismo do seu diretor.

Um ano antes de sua formatura, quando simples doutorando, Alexan­dre Yazbek iniciou sua atividade profissional na célebre epidemia de gripe espanhola em 1918, trabalhando ininterruptamente dois meses seguidos, dezoito horas por dia no Pronto Socorro Sino. Em 1920 diplomou-se com grande distinção e recebeu da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo o prêmio João Floréncio Comes, Meda­lha de Ouro e Diploma destinado à melhor tese apresentada à Faculdade de Medicina.

Foi convidado a pesquisar no famoso Instituto Butantã, mas optou pela imediata prática médica, exercida com grande intensidade através de seu trabalho no Hospital da Santa Casa, Hospital Alemão, em seu consultório e Hospital Santa Cecilia, fundado por seu irmão, Dr. Paulo Yazbek. In­cansável, atendia também a inúmeros chamados de doentes em seus lares.

Yazbek orgulhava-se por ser o pioneiro dos filhos colonizadores libane­ses e sírios que cursou e se diplomou numa Faculdade de Medicina no Brasil. Foi casado com Linda Assad Yazbek, com quem teve quatro filhos. Pescarias em alto mar ele as praticava com freqüência e, assim, conheceu bem a costa brasileira. Apreciava a boa culinária e tinha como companheiros inseparáveis um longo cigarro de palha e um bom livro.

Sua personalidade foi tão marcante que, clientes e amigos, até hoje mencionam episódios pitorescos ocorridos em seu consultório. No jubileu de ouro de sua formatura, aos 75 anos foi surpreendido com grandiosa homenagem promovida por colegas amigos e familiares.

No dia 22 de dezembro de 1972 faleceu aos 78 anos de idade, lembra­do com homenagem póstuma no Clube Monte Líbano de São Paulo.

Prof. Lacaz

* Texto do Dr. Carlos da Silva Lacaz (1915-2002) , publicado no livro MÉDICOS SÍRIOS E LIBANESES DO PASSADO - Trajetória em busca de uma nova Pátria - Editora ALMED - Rua Dr. Amâncio de Carvalho, 459 - Vila Mariana - São Paulo- SP - Direitos reservados.

Data de Publicação : 15/06/2007
Veículo : Associação Médica Líbano Brasileira
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