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Wadih Safady, médico e um dos pioneiros no levantamento de dados sobre a imigração árabe no Brasil. Nasceu na cidade libanesa de Zahle localizada nas montanhas que sucedem ao histónco vale do Bekaa às margens do Rio Bardauni - zona vinhateira e de agricultura de montanha, descendia de família de lavradores e pequenos proprietários rurais, uma familia tradicional, emigrada da Palestina para o Líbano, provavelmente em meados do século XVIII. Safady é nome patronimico, indicativo da cidade de Safad. Norte da Galiléia na Palestina.

Safad - Capital da Alta Galiléia na Palestina
Terceiro filho de uma grande prole nasceu a 22 da maio de 1898. Fez seus estudos pré primário e primário na escola anexa à Igreja de Santo Antônio de Muálakat - Instituição greco-ortodoxa fundada pela missão cultural russa. Os professores eram pagos pelo governo czarista, qua também fornecia o material escolar” afirma Wadih Safady em seu livro Cenas e Cenários dos Caminhos da Minha Vida (São Paulo,1966). Naquele momento (1951) decorria a guerra russo japonesa. e os alunos de Santo Antônio de Muálakat vibravam de patriotismo, cantando hinos em russo e árabe.
Mas, foi na escola “inglesa” (denominação dada pelos libaneses às missões protestantes norte-americanas) que concluiu seus estudos, com a idade de onze anos, habilitando-se ao prosseguimento dos estudos ginasiais e pré universitários no Colégio de Suk-al-Gharb. Em 1909 aos onze anos, matriculou-se como interno no Colégio de Suk-al-Gharb, mantido por missionários protestantes norte-americanos. Na estrada Beirute-Damasco. a quarenta quilômetros de Zahlé, localizava-se o povoado de Suk-al-Gharb, localidade em que um ex-cabo da guerra civil norte-americana, depois pastor evangélico, fundara a escola que levava o noma do vilarejo: Mr. Harding.
Concluindo seu curso ginasial e pré-universitário com média superior a 70 habilitou-se ao ingresso na Universidade Americana de Beirute, instituição de renome internacional, originada do “The Syrian Protestant College”. O charter da American University of Beirut foi concedido em 1918, depois da 1º Grande Guerra. Mas, o diploma de Medicina do “The Syrian Protestant College” era reconhecido pelo Estado de New York, desde a fundação da Escola, em 3 de dezembro de 1866.
Em 16 de Junho de 1920 concluiu o curso de Medicina na American University of Beirut, prestando em seguida, os exames de estado perante as autoridades francesas, que então ocupavam o Líbano em sucessão à invasão otomana. Naquele mesmo ano, o Dr. John Ward - Chefe da Clínica Cirúrgica da American University of Beirut - convidou Warth Safady para seu assistente em Dados biográficos coligidos pelo Prof.. Naiel Safady, filho de Wadth Safady, Prolessor Titular de Literatura Portuguesa, na Universidade Federal de Minas Gerais. Ward sucedia ao emérito cirurgião George Post à cuja escola pertencia.
A família do jovem médico, entretanto, mantinha longa tradição de comércio com o Brasil, desde seu avô, até seu pai, além de outros parentes que vinham para cá regularmente, desde 1875 E ainda menino, Wadih Safady acalentava o sonho de vir para esta terra. No Brasil vinha a fixar-se, sem nunca mais retornar ao Líbano.
Deixou o Líbano completamente destruído pela guerra e ocupação estrangeira. A bordo do paquete francês ‘Sfynx’ embarcou para o Brasil, aportando ao Rio de Janeiro em 2 de abril de 1922. ‘A visão deslumbrante da cidade maravilhosa – escreve - parecia-me conhecida pois. desde muitos anos atrás, através de contos enraizaram-se ao meu cérebro cenas similares do Rio de Janeiro’ Seus tios de há muito viviam no Rio de Janeiro, sendo um deles, o Padre Nicolau Safady, fundador da Igreja Greco Ortodoxa da cidade, que hoje recebe seu nome: Igreja São Nicolau.
Desde 1912 seu irmão mais velho viera para São Paulo razão por que Wadih Safady logo mudou se para essa cidade, onde o mano o esperava: era o dia 5 de abril de 1922. Na capital paulista logo começou a clinicar, contribuindo para a fundação, ainda em 1922, da Associação dos Ex-Alunos da Universtdade Americana de Beirute. Rapidamente aprendeu o português preparando-se para a revalidação de seu diploma de Medicina, que deveria acontecer na Faculdade de Medicina, do Rio de Janeiro - a famosa escola da Praia Vermelha perante banca formada pelos professores Oscar de Sousa (Fisiologia), Agenor Porto (Terapêutica), Benjamin Baptista (Técnica Cirúrgica). Este último, impressionado com uma anastomose de duas extremidades do intestino, dispensou-o de prosseguir na prova conferindo-lhe o grau ‘distinção’. Em seguida, submeteu-se aos quatro exames de clínica, todos efetuados na Santa Casa de Misericórdia, salvo o de Ginecologia, realizado na Maternidade das Laranjeiras. Examinaram-no os professores Augusto Paulino e Brandão Filho.
A banca de Clínica Médica compunha-se dos professores Miguel Couto, Henrique Roxo e Rocha Vaz, que também o aprovou com méritos. Somente em março do ano subseqüente (1923) pode apresentar as três teses de graduação quando recomeçaram as aulas na Faculdade de Medicina. Os três textos, em exame público, foram avaliados pelos professores Fernando de Magalháes, Oscar de Sousa e Brandão Pilho - sendo o candidato considerado apto ao exercício da profissão de médico no Brasil. A apostila a seu diploma foi lavrada em 12 de abril de 1923, pelo Prof. Aloysio de Castro - Diretor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. E, durante quarenta e dois anos, exerceu a profissão com dignidade e competência, No ano de 1925, naturalizou-se brasileiro.
Em 1930 casou-se com Salma Fauaz Safady, graduada pelo Colégio São José de São Paulo, e desse casamento nasceram três filhos: Naief, hoje professor catedrático da Universidade Federal de Minas Gerais; Clodete, que seguiu a carreira do pai, é médica formada pela Universidade de São Paulo; e, finalmente, Diana, arquiteta graduada pela Universidade Mackenzie.
Wadih Safady engajou-se em todas as atividades que riveram por objetivo a dignificação da história do imigrante árabe. Seus contatos com seu amigo, catedrático da Princeton University (EUA). Philip Hitti fizeram com que o Professor Eurípedes Simões de Paula — Diretor da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo já em 1951 se entusiasmasse pela implantação de estudos árabes na escola. Disso resultaria, em 1962, a criação da Seção de Estudos Orientais na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo.
Homem extremamente religioso e confiante na bondade humana, o grande contingente em sua clínica particular era formado por clientes de atendimento gratuito. Exerceu a cirurgia enquanto sua saúde o permitiu: depois retornou para a clínica geral, foi médico de ambulatórios de fábricas atendeu aos humildes e aos pobres porque acreditava que sua medicina servia para fazer o bem.
Quando faleceu, em 29 de junho de 1965 seu nome foi dado a uma praça em São Paulo, homenagem da cidade em que sempre viveu e a que muito amou. Dizia que o Brasil era sua terra. Não tinha preconceitos. E sua vida intelectual deambulava entre a poesia de Longfellow e os textos de Alexandre Herculano. Sua paixão musical era a ópera e a reverência com que escutava todos os dias, pela Rádio Gazeta, o programa “A Música dos Mestres” - Durante anos preparou o material informativo do “Noticiário Sírio-Libanês”, regularmente publicado pelo jornal A Gazeta: esse era seu modo de retornar às suas raízes e à sua origem cultural.

* Texto do Dr. Carlos da Silva Lacaz (1915-2002) , publicado no livro MÉDICOS SÍRIOS E LIBANESES DO PASSADO - Trajetória em busca de uma nova Pátria - Editora ALMED - Rua Dr. Amâncio de Carvalho, 459 - Vila Mariana - São Paulo- SP - Direitos reservados. |