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Marcado pela figura humana, caridosa e despojada de bens materiais

Raddad Shahdan Gazal ou Radad Gazel, filho de Shahdan Gazal e Fuaddah Baracat Gazal nasceu a 18 de junho de 1884, na cidade de Jdeidet Marjayoun no Líbano, à época, protetorado turco. Fez seus primeiros estudos na cidade natal e, aos 16 anos, foi para os Estados Unidos da América, onde se diplomou em Medicina, pela Universidade Washingtoniana de St. Louis no Missouri. Obteve por mérito, bolsa de estudos de dois anos, graduando-se em Medicina, Cirurgia e Obstetrícia, pela Universidade de Kentucky.

Em 1910 voltou ao Oriente, tendo trabalhado em alguns países como Egito, Abíssínia (atual Etíopia), Sudão e Palestina. Deixou definitivamente o Oriente, chegando no Brasil a 29 de dezembro de 1929, após insistentes convites de familiares aqui residentes, receoso pela sorte da esposa e seis filhos menores que viviam numa região constantemente convulsionada por atentados e agressões inimigas de posse e usurpação de terras.

Durante dez anos em que esteve no Egito e Sudão, como Major-Médico dos Exércitos Anglo-Egípcios, teve oportunidade de especializar-se em Oftalmologia, pela grande solicitação e freqüência de afecções oculares com que defronta entre tropas e populações camponesas, humildes e desprovidas de hábitos higiênicos, obtendo sempre os maiores êxitos em suas intervenções, principalmente no tratamento do tracoma (moléstia endêmica nesses países) e suas complicações, dentre inúmeros outras. Desenvolveu, inclusive, método próprio no tratamento cirúrgico do tracoma, que praticava com excelentes resultados, também no Brasil, ao lado da técnica clássica de Heiswrath.

No Brasil, em várias cidades do interior paulista, como São João de Bocaína – onde nasceu em 1931 seu primeiro filho brasileiro, de nome Pedro, o único a seguir a carreira do pai, vivendo com sua família na cidade de São Paulo, bem como em Bauru, Presidente Prudente, Assis, Ourinhos e Ibitinga, onde fixou residência por dez anos, o “médico turco” como era carinhosamente chamado, devolveu a visão a milhares de pacientes, tratando com atenção e carinho indistintamente a ricos e pobres, destes nada recebendo, pagando inclusive seu regresso às cidades de origem. A uma senhora, que desenganada em vários centros médicos, acometida por tracoma, devolveu a visão completa, permitindo-lhe conhecer os cincos filhos que possuía, este foi um dos inúmeros casos dramáticos que marcaram sua vida de amor, carinho e dedicação ao próximo, mesmo à custa do sacrifico da própria família, cujos filhos educou com grandes dificuldades.

Faleceu a 9 de junho de 1946, após dois longos anos de sofrimento, de moléstia crônica e incurável, cercado do carinho e amor da esposa Eugenia Nader Gazal e oito filhos – Daisy, Fuad, Kamal, John Wesley, Viola, Alfred, Pedro e Vera Gazal, todos eles marcados pela memória da figura ao mesmo tempo humana, caridosa e despojada de bens materiais de seu ilustre pai.

Dentre as inúmeras amizades que deixou no Brasil, é digna de menção a que mantinha com Taufik Kurban, a quem já conhecia em sua terra natal, senhor de forte personalidade, filósofo, culto e inteligente, verdadeiro baluarte da língua e literatura árabe, poliglota, cujo desaparecimento, ocorrido em são Paulo, encheu de luto os meios culturais e a comunidade árabe no Brasil.

Gazal (em seu passaporte consta o sobrenome Gazelle) era cirurgião, mas por força de circunstâncias, especializou em Oftalmologia, chegando a escrever pequeno trabalho sobre “Moléstias dos Olhos”, “dedicado ao lavrador, egípcio, brasileiro e palestiniano, que é uma vítima das injustiças e da maldade dos seus próximos e da natureza que o fez pobre”. Não conseguiu o Dr. Gazal revalidar seu diploma de médico no Brasil, apesar dos diplomas e certificados que possuía (Universidade de St. Louis, Missouri, Estado do Illinois e Governo da Palestina), indo trabalhar, em 1929 na fazenda do Sr. Atala, em São João da Bocaína, rico comerciante de café nesta cidade do Estado de São Paulo. Aí nasceu seu filho Pedro, diplomado em 1956 pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e que foi meu discípulo e afilhado, especialista em Cirurgia Vascular.

Diplomado, conforme referimos, Nos estados Unidos, foi para Haifa na Palestina, mas perseguido pelos judeus resolveu vir para o Brasil. Seu passaporte e de sua esposa data de 18 de julho de 1928, tirado em Haifa.

Dr. Carlos Lacaz

* Texto do Dr. Carlos da Silva Lacaz (1915-2002) , publicado no livro MÉDICOS SÍRIOS E LIBANESES DO PASSADO - Trajetória em busca de uma nova Pátria - Editora ALMED - Rua Dr. Amâncio de Carvalho, 459 - Vila Mariana - São Paulo- SP - Direitos reservados.

Data de Publicação : 16/05/2007
Veículo : Associação Médica Líbano Brasileira
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