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Négib Khalil Scaff nasceu na pitoresca, nobre e hospitaleira cidade de Zahlé no Líbano, aos 24 de novembro de 1887. Descendia de tradicional e numerosa família local, cujos membros formavam comunidade ciosa em guardar seus hábitos e costumes, mas aberta à influência ocidental. Scaff cresceu à sombra da cultura francesa, sob os cuidados de seus avós, a quem foi confiado quando seus pais imigraram para o Brasil. Desde cedo demonstrou invulgar inteligência, despertada para a ciência, que o levou, posteriormente, à arrojada empresa de exercer, no Brasil, a especialidade que o tornou famosos e respeitado.
Iniciou seus estudos superiores na Universidade São José em Beirute e em 10 de novembro de 1908, alguns dias antes de completar 21 anos, recebeu o diploma de Doutor em Medicina, assinado pelo Ministro da Instrução Pública, e, Paris, e liberado pelo Cônsul Geral da França em Bierute (na época o Líbano e a Síria eram protetorados franceses). Três anos mais tarde, doutorou-se em Medicina e Cirurgia pelas Faculdades Imperiais de Medicina de Constantinopla. (Sultunato Abdul Hamid II Khan). Chegando a São Paulo, revalidou seu diploma a 11 de agosto de 1919, pela Faculdade de Medicina de São Paulo. Era secretário dessa escola, o Dr. Benjamin Reis. Sem o incentivo direto dos pais, parco em recursos financeiros, Scaff obteve seus diplomas com esforço e mérito próprios, guiado pela sede do saber, uma constante em toda sua vida exemplar.
Scaff era um estudioso inveterado, espírito lúcido, receptivo e arrojado. Já formado, quis juntar-se aos seus, no Brasil. Mas antes, freqüentou diversos cursos em Beirute e paris, em cuja Faculdade foi assistente na Clínica Médica do Professor Marcel Labbé a quem, posteriormente, teve a alegria de recepcionar e, são Paulo. Terminadas essas atividades, pôde Scaff, ao chegar ao Brasil, enfrentar com êxito o desempenho de sua profissão. Em São Paulo procurou se colocar a serviço da Santa Casa de Misericórdia, recebido pelo então Diretor Clínico, Arnaldo Vieira de Carvalho, de quem se tornou amigo. Foi o primeiro médico libanês a exercer medicina em São Paulo. Certeza e infabilidade nos diagnósticos, aliados à sua lhaneza e fineza no trato, tornaram no clínico requisitado por tradicionais famílias paulistas antes de se dedicar inteiramente à Radiologia, da qual foi pioneiro em São Paulo.
O Prof. Antonio Barros de Ulhôa Cintra, em “Um Século de Medicina Clínica”, suplemento publicado pelo “O Estado de São Paulo”, em 23 de março de 1978, traçou um longo histórico da “Medicina Clínica, no Brasil”, referindo-se, em tópicos, às suas diversas especialidades, dentre elas, a RadIologia, referindo textualmente: “Depois de Roentgen, em fins do século passado e, a seguir, de Cannon que, ainda estudante de medicina idealizou um meio de contraste para visualizar o aparelho digestivo, o exame radiológico passou a trazer substancial ajuda para o exame terapêutico. Os brasileiros iniciaram cedo a utilização do método, a começar por Alfredo Brito, na Bahia. Mas, o empenho para o desenvolvimento e a divulgação em grande escala veio mais tarde com Seng. Rafael de Barros e Scaff, em São Paulo e Duque Estrada no Rio de Janeiro”.
Pioneirismo, em qualquer ramo de ciência, supõe doação inteira e espírito de conquista. A luta deve ter sido árdua no inicio, mas compensadora em sua continuidade. Scaff montou o primeiro consultório de Radiologia em São Paulo, incumbindo-se, inclusive, do contato direto com firmas especializadas francesas para a importação dos aparelhos cuja montagem e instalação supervisionou. Desejando fixar-se, definitivamente, no Brasil, procurou obedecer suas leis e aos 10 dias de fevereiro de 1917 prestou os exames exigidos pelo Regulamento da Faculdade de Medicina de São Paulo, para habilitação dos médicos estrangeiros. Defendeu tese, sendo aprovado e julgado apto a clinicar em São Paulo.
Anos mais tarde, juntamente com outros colegas, recepcionou, no anfiteatro da Faculdade de Medicina da Capital, com emoção e alegria, a emérita cientista Madame Curte, quando de sua vinda a São Paulo, onde veio proferir conferência sobre sua extraordinária descoberta. Scaff exerceu, também, suas atividades profissionais no tradicional Instituto Paulista, no sanatório Santa Catarina e na Santa Casa de Misericórdia de Santos, para onde descia todas as semanas.
Era sócio titular da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. Pouco depois de sua chegada a São Paulo, procedente do Líbano, seu progenitor adoeceu, tendo assumido a responsabilidade da educação de seus nove irmãos, a quem dedicava profunda afeição. Procurou transmitir a eles e a alguns sobrinhos seus vastíssimos conhecimentos de cultura geral. Poliglota, além da língua materna, dominava perfeitamente o francês, o inglês, o alemão, o espanhol, o aramaico e o hebraico, o latim e o grego, cujos clássicos lia no original. Era um verdadeiro Mestre. Sua ambição consistia em transmitir seus conhecimentos científicos, culturais e artísticos e o fazia com clareza e profundidade.
Sempre cultivou as amizades que escolhia entre pessoas cultas, não se preocupando com sua condição social. Amava os pobres e os humildes, a quem servia com o mesmo carinho que dispensava aos clientes de alta classe social. Inteligente, humilde, humanitário, amigo, despido de vaidades, assim era o Négib Khalil Scaff que faleceu aos 26 dias de junho de 1955, constando como causa da morte, insuficiência cardíaca, após infarto do miocárdio.
Indubitavelmente, foi ele um dos grandes propulsores da Radiologia, em São Paulo.

* Texto do Dr. Carlos da Silva Lacaz (1915-2002) , publicado no livro MÉDICOS SÍRIOS E LIBANESES DO PASSADO - Trajetória em busca de uma nova Pátria - Editora ALMED - Rua Dr. Amâncio de Carvalho, 459 - Vila Mariana - São Paulo- SP - Direitos reservados. |