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Said Abu Jamra nasceu a 21 de abril de 1871, em Kfeir, Líbano. Emigrou para o Brasil em fins do século passado, aqui chegando em maio de 1899. Fixou-se em são Paulo. Casou-se a 29 de dezembro de 1899 com dona Afife Abu Jamra, natural do Líbano, onde era professora de inglês. O casal teve quatro filhos e uma filha. Formado em letras, em 1887, pelo Colégio Protestante Sírio que, mais tarde faria parte da Universidade Americana de Beirute, fez seus estudos de Medicina na Escola de Medicina Marion Sims, de Saint Louis no Missouri, EUA, onde se graduou em 1899.
Said Abu Jamra foi dos poucos pioneiros que aqui chegaram com nível educacional e universitário, sendo o primeiro médico árabe a clinicar no Brasil. Viveu intensamente, cuidando de praticar a medicina geral, em seu consultório à Rua Florêncio de Abreu, tendo como clientes os primeiros emigrantes sírio-libaneses. Estes receberam, da parte do Dr. Said, não só os cuidados médicos, mas também aconselhamento e orientação nas questões do dia a dia.
Em São Paulo, o Dr. Said Abu Jamra tinha muitos coterrâneos. Dedicou-se por muitos anos a cuidar dos que a ele recorriam em busca de auxílio, remunerando-se com pagas simbólicas, mesmo porque a situação dos que aqui iniciavam suas novas vidas não permitia nada de maior. O atendimento aos pobres, feito com carinho, fez crescer o respeito popular para com sua pessoa. Sua condição de universitário e de intelectual nacionalista, ligado aos grandes centros árabes de Damasco, Beirute e Cairo, levaram-no a se preocupar com os problemas que aqui ocorriam e também os da Síria e do Líbano. Envolveu-se no movimento nacionalista árabe que estava enraizado nas três capitais mencionadas e que tinha com seus mais atuantes propugnadores ex-alunos da Universidade Americana de Beirute. Por esses fatos é que o Dr. Said Abu Jamra, em 1902, criou o jornal “Al-Afkar” (“Os Pensamentos”) que, por quarenta anos, serviu à causa de emancipação dos povos árabes do jugo imperialista e colonialista que os assolou por tantas décadas, desde o século passado. Através d Jornal “Al-Afkar” foram divulgados os direitos humanos, dentro da melhor tradição americana, e encetadas campanhas que propugnavam a emancipação dos povos da Síria e do Líbano do domínio dos turcos e, mais tarde, dos ingleses e franceses. Fundou e foi o primeiro presidente da Associação dos ex-alunos da Universidade Americana de Beirute.

O forte sentimento nacionalista do Dr. Said Abu Jamra levou-o a manter com sacrifícios pessoais, a regularidade de publicação do jornal “Al-Afkar” desde 1903, ano de circulação do seu primeiro numero, até 1943. O jornal teve o apoio dos emigrantes sírios e libaneses, agora espalhados por todas as regiões do Brasil. Levava-lhes mensagens de ânimo e fé no futuro e, de outro lado, informações úteis sobre as leis do Brasil, orientações e regulamentações governamentais, tendências e decisões das autoridades dos vários Estados do Brasil e da União. O “Al-Afkar” foi recebido com entusiasmo. Era um grito pró-liberdade dos povos e geral e pró-independência dos povos árabes, e particular. O jornal foi igualmente bem recebido em Beirute, Damasco e Cairo. Em 1926 foi o Dr. Said Abu Jamra eleito Membro da Academia de Letras de Damasco, apesar de residir no Brasil, como homenagem pública pelo reconhecimento dos serviços que prestou aos governos nacionalistas sírio e libanês.
O trabalho jornalístico diuturno no imenso território brasileiro, as informações básicas do que acontecia no país e no mundo, e as indicações de como realizar o bom e adequado convívio com os brasileiros. Foi órgão de integração. O “mascate”, em suas andanças sem fim, por fazendas espalhadas em Minas Gerais, Mato Grosso, Pará, Amazonas, Rio Grande do sul, Norte e Nordeste, sentia-se orientado e amparado. Desenvolveu o Dr. Said a idéia de que quanto mais acelerada a integração, mais se atingiria à verdadeira nacionalização do imigrante. A nacionalização do imigrante sírio-libanês foi tão completa que se chegou à sua verdadeira “caboclização” pelo convívio e, sobretudo, pelos casamentos. As lides do jornal, com o correr do tempo, levaram o Dr. Said à diminuição de suas atividades profissionais como médico, enquanto o jornal se mantinha e crescia.
Em 24 de março de 1928 um grande banquete, oferecido pela coletividade sírio-libanesa nos salões do Trianon, comemorou a passagem do jubileu de prata do Jornal “Al-Afkar”. A homenagem repercutiu em todas as partes do Brasil e nos jornais árabes do Egito, Síria e Líbano.
Os Ex-alunos da Universidade Americana de Beirute, todos imbuídos dos ideais da Revolução Americana de Jefferson e dos que redigiram a Constituição Americana e que levaram ao mundo os ideais de liberdade e democracia, mantinham-se firmes e unidos em seus ideais. O Dr. Said abu Jamra, fundador e primeiro presidente da associação dos ex-alunos da Universidade Americana de Beirute, promoveu por anos, reuniões, colóquios e conferências.
Tornou-se seu presidente de honra. Em 1939 a Associação promovia a visita e recebia em São Paulo, na residência de seu presidente, o Prof. Philip Hitti, então professor de História na Universidade de Princeton e tratadista da “História dos Povos Árabes”. Essa obra monumental, publicada em 1937, teve decisiva influência na atitude dos intelectuais e dos agentes governamentais dos EUA e da Europa, diante dos problemas e das situações tão especiais dos vários povos árabes.
Foi membro da associação paulista de Imprensa, recebendo Diploma de Mérito em 1938, pelos serviços prestados à imprensa paulistana por 36 anos consecutivos, tanto através do jornal por ele dirigido e publicado, o “Al-Afkar” como pela colaboração em periódicos de São Paulo, especialmente o “Correio Paulistano”.
Em 1950 o Dr. Said Abu Jamra, a quatro anos de seu falecimento, recebia homenagem da coletividade sírio-libanesa, dos seus amigos brasileiros e dos representantes das mais diversas entidades e agremiações da cultura e da imprensa brasileira. Esta última homenagem em vida seria como a consagração de toda uma existência dedicada aos ideais de liberdade, de democracia, de autodeterminação dos povos e, também, ao socorro e ao auxilio dos que necessitavam de cuidados médicos ou espirituais.
Em 1963 o Conselho Municipal de Beirute deu o nome do Dr. Said Abu Jamra a uma das avenidas da Cidade. A Prefeitura da Cidade de São Paulo, na gestão Olavo Setúbal, associou-se ao reconhecimento do trabalho feito pelo Dr. Said Abu Jamra. E assim, em setembro de 1980, em reunião da família Abu Jamra, foi descernada placa indicativa da Praça Dr. Said Abu Jamra, em reconhecimento aos seus esforços em prol da integração do imigrante sírio-libanês ao Brasil.
Faleceu o Eminente colega a 5 de agosto de 1954, na cidade de São Paulo, aos 73 anos.

* Texto do Dr. Carlos da Silva Lacaz (1915-2002) , publicado no livro MÉDICOS SÍRIOS E LIBANESES DO PASSADO - Trajetória em busca de uma nova Pátria - Editora ALMED - Rua Dr. Amâncio de Carvalho, 459 - Vila Mariana - São Paulo- SP - Direitos reservados. |