|
Por Jorge Michalany, Professor Doutor.
No mês de julho de 2006, a Escola Paulista de Medicina (EPM) perdia um de seus mais queridos ex-alunos, o inigualável colega Samoel Atlas. Nascido em 1925 na cidade de São Paulo, no Bairro do Brás, onde fez curso primário, conviveu ali com colegas de origem italiana que lhe serviu de estímulo para o seu poliglotismo e imitações de estrangeiros falando português. Completou o curso secundário em 1945 e ingressou na EPM em 1947 onde se graduou em 1953. Durante o curso optou por especializar-se em ortopedia, tornando-se assistente da Cátedra e, posteriormente, Doutor e Docente Livre. Além da EPM ampliou sua atividade médica no Pavilhão Fernandinho da Santa Casa de Misericórdia. Aperfeiçoou-se no Exterior, principalmente em Oxford com o célebre Prof. José Trueta, onde iniciou suas pesquisas sobre pés tortos congênitos. Dedicou-se também às instituições humanitárias como o Lar Escola São Francisco e APAE.
Meu primeiro encontro com Atlas deu-se em 1950, na Cátedra de Anatomia Normal que eu freqüentava porque me indispusera com o catedrático da Anatomia Patológica da qual era assistente. Já naquela ocasião Atlas se distinguia por ser bom aluno e, tal como eu, um romântico da EPM. O prestígio de Atlas com a Diretoria e o Ministério da Educação era extraordinário, a ponto de conseguir instalar na EPM uma agência do Banco do Brasil, o que facilitaria a atividade financeira dos docentes e estudantes. Ademais, foi ele quem batizou o salão de barbeiro como Al Fígaro que eu depois mudei para Il Fígaro.
Atlas era um notável poliglota e filólogo dominando o árabe e o inglês e imitando o modo de falar português dos sírio-libaneses, italianos e até dos húngaros. Quando estudante, imitava com perfeição os professores, principalmente Jairo Ramos, José Maria de Freitas e até eu no quadro negro. Infelizmente, tal como eu, foi, em 1969, considerado elemento ocioso a fim de ser dispensado da Escola, a mando da esquerda e dos criptocomunistas que dominavam a instituição naquela ocasião. Sucede que, na época, quem não concordasse com a esquerda era tido como elemento da direita, o meu caso e o de Atlas, a ponto de eu ser considerado um agente da CIA!
Atlas uniu-se a mim no protesto que fizemos às autoridades civis e militares, tanto que, quatro dias depois da dispensa, fomos chamados pelo Diretor que, com lágrimas de crocodilo, alegou que tal decisão, fora devida a um engano do Ministério da Educação! Enfim, não fosse a Manu Militari e da Reitoria da USP, nem eu, nem Atlas teríamos permanecido na nossa querida Escola Paulista de Medicina. Após a revogação do traiçoeiro conluio, inúmeros colegas, entre eles eu, fizemos uma grande homenagem a Atlas, em cujo banquete proferi as seguintes palavras:
As Santas Casas das Misericórdias têm por tradição conferir o título de Irmão Benemérito aos cidadãos que a elas muito se dedicaram. E, a meu ver, as Universidades deveriam fazer isso também, concedendo, além do tradicional título In Honoris Causa, também o título de Doutor Benemérito.
Você, Atlas, é uma instituição da Escola Paulista de Medicina. O simples fato de reviver com suas incomparáveis imitações a história dessa Escola lhe daria o direito de receber o título de Doutor Benemérito.
Você, Atlas, possui a arte do espírito e da frase. E, se me permite reviver em algumas palavras o valor do espírito e da frase, eu me valeria de Júlio Dantas, quando, na Ceia dos Cardeais – esta jóia da literatura portuguesa - o Cardeal de Montmorency, discordando do seu fanfarrão companheiro, Cardeal Ruffo, afirmava que o espírito valia mais que a força para a conquista de uma mulher. E assim disse ele:
“Que seria o amor sem espírito, Eminência?
Uma paixão brutal ou mais uma impertinência,
Sem pureza, sem tudo aquilo que resume
O coração num beijo e a alma num perfume!
Com os punhos de renda, até a ofensa é linda!
Pode ser fina a espada; a frase é mais ainda:
Uma escola subtil de esgrima delicada...
Procura o coração, a frase, como a espada,
E desfaz-se, ao ferir, em pedras preciosas,
Como os raios de Sol quando ferem as rosas...
Se ao homem vence a espada e se é belo vencer,
O espírito faz mais – porque vence a mulher!” |